"Que o outro saiba quando estou com medo, e me tome nos braços sem fazer perguntas demais.
Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta, mas entenda que não o amarei menos porque estou quieta.
Que o outro aceite que me preocupo com ele e não se irrite com minha solicitude, e se ela for excessiva saiba me dizer isso com delicadeza ou bom humor.
Que o outro perceba minha fragilidade e não ria de mim, nem se aproveite disso.
Que se eu faço uma bobagem o outro goste um pouco mais de mim, porque também preciso poder fazer tolices tantas vezes.
Que se estou apenas cansada o outro não pense logo que estou nervosa, ou doente, ou agressiva, nem diga que reclamo demais.
Que o outro sinta quanto me dóia idéia da perda, e ouse ficar comigo um pouco - em lugar de voltar logo à sua vida.
Que se estou numa fase ruim o outro seja meu cúmplice, mas sem fazer alarde nem dizendo ''Olha que estou tendo muita paciência com você!''
Que quando sem querer eu digo uma coisa bem inadequada diante de mais pessoas, o outro não me exponha nem me ridicularize.
Que se eventualmente perco a paciência, perco a graça e perco a compostura, o outro ainda assim me ache linda e me admire.
Que o outro não me considere sempre disponível, sempre necessariamente compreensiva, mas me aceite quando não estou podendo ser nada disso.
Que, finalmente, o outro entenda que mesmo se às vezes me esforço, não sou, nem devo ser, a mulher-maravilha, mas apenas uma pessoa: vulnerável e forte, incapaz e gloriosa, assustada e audaciosa - uma mulher."
Lya Luft
Nasce a cada instante sonhos e desejos que eu procuro demonstrar em palavras e que apesar de serem internos é bem exteriorizado para quem quer que seja.Um brinde as pessoas e aos seus sonhos!
quinta-feira, 9 de junho de 2011
"O começo sempre será difícil. Conhecer o novo, sair da zona de conforto e de segurança. Ir além, ir após. Começar é uma tortura para chegar em algo que será extramente ótimo ou não. Começar é dar o primeiro passo, não vacilar. Começar é abrir a janela de manhã, respirar bem fundo e saber que daqui meio minuto os abençoados problemas do dia irão surgir. Começar é trocar o pão pelo biscoito, o frito pelo assado, descobrir o gosto da rúcula aos 23. Começar é saber que cebolas são disfarces para quem tem vergonha do choro, e que as piadas sem graça é a desculpa de quem a tem como o único motivo para o riso. Amores virão depois das paixões, palavras certas sempre virão depois das erradas, a resposta certa virá quando o ato errado foi cometido, televisões novas estragam e garantias são perda de tempo, o telefonema mais esperado irá chegar enquanto estamos tomando banho com o rádio no último volume, as cartas não chegam, nem os e-mails, nem a esperança, as taças caras quebram como os copos de extrato de tomate, analfabetos ganham o país e poemas de Alice Ruiz passam sem aclamação. Começar pode ser aos 17. Pode ser aos 30. Pode ser aos 85. Começar pode ser ao som de Marvin Gaye ou no apaixonar de Chico. Debaixo de uma mangueira, debaixo de uma chuva torrencial. Começar em Porto Alegre, pousar em Curitiba, recomeçar na Avenida Paulista, dormir no braços de Cristo e "passar uma tarde em Itapuã, ao sol que arde em Itapuã, ouvindo o mar de Itapuã...". Começar é de repente perceber que já se está na metade do caminho. Começar é dar mais valor ao tempo que temos e descobrir como é uma tortura o tempo que não temos. Começar é dar possibilidade de que alguma coisa aconteça aqui ou em Amsterdã. O beijo é o começo do amor. O amor é o começo do plano. O plano é o começo do caos. O caos é o começo da família. A família é o começo dos herdeiros. Os herdeiros são o começo do futuro. E o futuro já não é mais tão perto e nem tão para a gente. O futuro, aparentemente é o fim que nos espera. Espera para começar."
Cáh Morandi
Cáh Morandi
quarta-feira, 8 de junho de 2011
ele: - (...) vamos mudar de assunto e já!
ela: - falar então de quê?
ele: - por exemplo, de você.
ela: - eu?!
ele: - por que esse espanto? você não é gente? gente fala de gente.
ela: - desculpe mas não acho que sou muito gente.
ele: - mas todo mundo é gente, meu Deus!
ela: - é que não me habituei.
ele: - não se habitou com quê?
ela: - ah, não sei explicar.
ele: - e então?
ela: - então o quê?
ele: - olhe, eu vou embora porque você é impossível!
ela: - é que só sei ser impossível, não sei mais nada. que é que eu faço pra conseguir ser possível?
(...)
' lispector
ela: - falar então de quê?
ele: - por exemplo, de você.
ela: - eu?!
ele: - por que esse espanto? você não é gente? gente fala de gente.
ela: - desculpe mas não acho que sou muito gente.
ele: - mas todo mundo é gente, meu Deus!
ela: - é que não me habituei.
ele: - não se habitou com quê?
ela: - ah, não sei explicar.
ele: - e então?
ela: - então o quê?
ele: - olhe, eu vou embora porque você é impossível!
ela: - é que só sei ser impossível, não sei mais nada. que é que eu faço pra conseguir ser possível?
(...)
' lispector
terça-feira, 7 de junho de 2011
Canção na plenitude:
"Não tenho mais os olhos de menina, nem corpo adolescente, e a pele translúcida há muito se manchou. Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura agrandada pelos anos e o peso dos fardos bons ou ruins.(Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.) O que te posso dar é mais que tudo o que perdi: dou-te os meus ganhos. A maturidade que consegue rir quando em outros tempos choraria, busca te agradar quando antigamente quereria apenas ser amada. Posso dar-te muito mais do que beleza e juventude agora: esses dourados anos me ensinaram a amar melhor, com mais paciência e não menos ardor, a entender-te se precisas, a aguardar-te quando vais, a dar-te regaço de amante e colo de amiga, e sobretudo força — que vem do aprendizado. Isso posso te dar: um mar antigo e confiável cujas marés — mesmo se fogem — retornam, cujas correntes ocultas não levam destroços mas o sonho interminável das sereias."
Lya Luft
Extraído do livro "Secreta Mirada", pág. 151
Lya Luft
Extraído do livro "Secreta Mirada", pág. 151
“Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise. Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior do que eu mesma, e não me alcanço. Além do quê: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano — já me aconteceu antes. Pois sei que — em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade — essa clareza de realidade é um risco. Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém.”
Clarice Lispector
Clarice Lispector
"Lembro-me de levantar ao amanhecer. Havia tamanha sensação de possibilidades, sabe essa sensação? Eu me lembro de ter pensado: '"Este é o inicio da felicidade. É aqui que começa. E, sem dúvida, sempre haverá mais". Nunca me ocorreu que não era o começo. Era felicidade. Era o momento. Naquele exato momento."
Do filme: As horas.
Do filme: As horas.
segunda-feira, 6 de junho de 2011
Não existe melhor ferramenta que o sofrimento ultrapassado dentro de nós próprios, do que a compreensão e integração no nosso espírito que nós somos aquilo que pensamos e que realizamos aquilo que desejamos. Que o caminho não é a lamentação, a desistência nem a ansiedade. Que o caminho não se percorre cruzando os braços e desistindo. Que os milagres não acontecem se apenas os esperarmos. É preciso tomar decisões dentro de nós. Ganhar consciência. Viver de peito aberto, de forma completamente honesta e sem plano B.
"Eu me fui, eu me sou, eu me serei em cada um dos girassóis do reino a ser feito. E as coisas terão que ser claras. Releio o que escrevi neste caderno, desde janeiro, revejo o que vivi. Tudo me conduziu para este here and now. Tudo terá que ser claro. How can I tell you?"
22 de maio, in Lixo e purpurina
22 de maio, in Lixo e purpurina
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